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FILMES

13/11/2009

Mary e Max (Mary and Max, 2009) Sabe aquele papo de animação para adultos nos filmes da Pixar? Esqueça. Mary e Max é a animação definitiva quando se pensa em entretenimento pensante para qualquer um que já consiga encostar os pés no chão enquanto está sentando numa poltrona no cinema. Em meio ao mar de filmes em terceira dimensão que invadiu os cinemas nos últimos meses, no que parece ser a mina de ouro do mercado cinematográfico atual, é incrivelmente gratificante ver que um estilo há muito consagrado como a animação step motion ainda consegue se sustentar como obra, bastante apenas alguma dose de criatividade. E de momentos geniais, o filme está cheio. A história, “baseada em fatos reais”, une os dois protagonistas através de cartas: a pequena Mary, uma australiana solitária e cheia de dúvidas encontra em Max, um americano solitário e com tantas dificuldades quanto ela, alguém para dizer todas aquelas trivialidades que formam qualquer pessoa. Sempre conversando através das correspondências, os anos vão passando, a vida acontecendo, e entre idas e vindas, os dois estão lá, o suporte um do outro. Incrivelmente maduro e complexo, se comparando com as animações que pulalam nas telas todos os anos, a chegada de Mary e Max no cinema é pra festejar: o filme lembra muito a temática e o estilo que comumente se vê nos curtas-metragens que vão parar nos pequenos festivais e que agora, finalmente, começa a migrar para as telonas. Temas densos, sérios e uma boa dose de sinceridade – para adultos, sempre é bom lembrar – dirigidos com extrema destreza por Adam Elliot (que ganhou o Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação em 2004, com Harvie Krumpet) formam o que se pode chamar de uma pequena obra-prima.

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FILMES

07/11/2009

GAROTA INFERNAL (Jennifer’s Body, 2009) Depois do estouro em Juno e do conseqüente anúncio de que faria um filme de terror, muitos ficaram sem entender Diablo Cody. E, de fato, era desanimador a idéia de que todo o frescor que surgiu no drama independente que a levou a vencer o Oscar de roteiro original em 2008 ia ser dissipado num gênero que, ultimamente, deixou de ser sinônimo de filme bom. Mas tudo isso é só uma meia-verdade. Garota Infernal é uma grande brincadeira da roteirista e uma boa diversão pra quem busca entretenimento sem afetar o cérebro. O plot principal é construído em cima de Jennifer (Megan Fox), uma adolescente de uma escola secundária americana cuja principal diversão é se alimentar do sangue de suas vítimas – os garotos da escola. O amontoado de clichê que a história traz a partir daí vira mera alegoria nas mãos de Diablo: a garota nerd, a cheerleader, a improvável amizade entre as duas, o garoto impopular, a cidade suburbana, uma banda de rock e as fãs seguidoras, virgindade, primeira noite de sexo, o baile etc., tudo vira artifício nas mãos da roteirista, com boa dose de ironia num roteiro redondinho – que atrai ainda elementos que aguçam ainda mais o interesse na história. Pena que ela não segura as câmeras e a brincadeira fica cansativa nos planos óbvios que Karyn Kusama (de Aeon Flux e Girlfight) dirige, entregando um produto abaixo da expectativa, ainda que gostoso de se ver.

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FILMES

01/11/2009

WHATEVER WORKS (idem, 2009) Woody Allen é um caso a ser estudado: é bastante impressionante a capacidade que o cineasta possui de, mesmo produzindo uma obra por ano, ter sempre o que dizer. A eloqüência número quadragésima primeira de sua carreira atende pelo nome de Whatever Works, um daqueles trabalhos do diretor que a crítica insiste em chamar de “filme menor”. Personagens clássicos (como o alter-ego de Woody, um pouco mais aborrecido e antipático, vivido por Larry David) se misturam a outros bastantes incomuns na filmografia do diretor, como a genial Patrícia Clarkson, para compor a história do título auto-explicativo: tudo pode acontecer. Passada em Manhattan, mostra um sexagenário hipocondríaco-presunçoso que, ao conhecer uma jovem sulista, vê a família inteira dela cruzar seu caminho, cada um deles ter sua história modificada, enquanto a sua praticamente permanecer como está. Da premissa básica, o cineasta extrai diálogos e situações inimagináveis e, com inteligência e destreza, entrega um trabalho que, ainda que melhor em seu final do que no princípio, se destaca no rio de produções pouco interessantes. A curiosidade fica por conta do fato de que, escrito em meados da década de setenta, Whatever Works já trazia um ménage-a-trois muito antes do genial Vicky Cristina Barcelona, e com uma grande ousadia: o trio aqui beira os sessenta anos.

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SÉRIE EPÍLOGOS

01/11/2009

“Acontece que odeio festas de Ano Novo.  Todo mundo desesperado para se divertir, tentando comemorar de algum modo patético. Comemorar o quê? Um passo mais perto da sepultura? É por isso que não me canso de dizer, qualquer amor que possa receber e dar, qualquer felicidade que possa se apropriar ou fornecer, cada breve gesto gentil, tudo pode dar certo. E que ninguém se engane, nem tudo depende da genialidade humana. A maior parte de sua existência é mais sorte do que gostaria de admitir. Cristo, você sabe as chances de um esperma do seu pai, entre bilhões, encontrar o único ovo que fez você? Não pense sobre isso, você terá um ataque de pânico.”

Whatever Works (idem, EUA, 2009) de Woody Allen

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BESOURO

31/10/2009

Besouro

Falar de cinema brasileiro sem retomar os chavões “produção diversificada” e “filme-social” ou “filme-denúncia” não é tarefa fácil. Depois da explosão da produção desde a retomada, que já culminou com diversos títulos arrastando multidões ao cinema, os gêneros filmados em solo nacional realmente são restritos a um tipo específico que tem brigado por espaço junto das comédias globais.

Besouro, estréia do diretor João Daniel Tikhomiroff na telonas, é uma das gratas surpresas que surgem de tempos em tempos. Não especificamente por seus méritos ou deméritos como obra artística, mas por galgar espaço entre os grandes, algo que aconteceu há algum tempo com Redentor, a incursão do diretor Cláudio Torres (e do cinema nacional) no gênero da ficção científica.

O filme se passa durante as primeiras décadas do século passado, cerca de quarenta anos após a abolição da escravatura, onde um grupo de capoeiristas negros no Recôncavo Baiano luta pelo direito de praticar a arte marcial, que é uma espécie de grito de liberdade dos ex-escravos. O trabalho é o que se pode chamar de ‘filme de macho dos trópicos’: muita movimentação, luta e um bocado de violência. A novidade? Efeitos especiais se aliam pra fazer o protagonista voar, dando ao filme um ar quase transcendental, que acontece num mundo a parte.

A história se apossa de elementos ‘sobrenaturais’ para a grande maioria dos brasileiros, os rituais do Candomblé muito fortes na cultura do povo africano, como forma de elemento balizador pro balé dos ares: se o dorso narrativo permite orixás e espíritos vagando em cena, tanto possível é voar – muita gente vai lembrar de O Tigre e o Dragão e a comparação não passa longe da questão, uma vez que o coreógrafo do filme asiático foi trazido ao Brasil para orquestrar o trabalho dos atores (quase todos desconhecidos até então). O único senão aqui é mesmo o endosso desnecessário que o filme busca para os efeitos mágicos da luta do protagonista.

Vale ressaltar, no entanto, que Besouro é um personagem real, pouco conhecido mas cantado em qualquer roda de capoeira. Foi um jovem que realmente lutou pelos ideais do seu povo, desafiou os opositores e, reza a lenda, fez milagres e virou quase super-herói – o que justifica, também, essa leitura onírica tomada pelo filme.

Besouro entrou pra história que os livros não contam e que o diretor resgatou, num trabalho de pesquisa baseado em uma obra literária que ficou empoeirada durante um bom tempo nas prateleiras que, se não rendeu o grande filme que se espera ver ao entrar em um cinema, chegou chutando as portas ao adentrar num mercado tão limitado e cheio de barreiras. E não faz feio não.

ficha técnica
Besouro
produção brasileira de 2009
dirigido por João Daniel Tikhomiroff
com Aílton Carmo, Anderson Santos de Jesus, Jessica Barbosa

Bastardos Inglórios

Nesse post-reprodução do filme do ano, Bastardos Inglórios, duas frases merecem destaque. A primeira, créditos de Lorena, se resume a “A História da Humanidade foi decidida dentro de uma sala de cinema”; a segunda, do próprio Tarantino, é um recado muito claro:  “I think this might just be my masterpiece”.

Abaixo, pra esclarecer um pouco mais a questão, o ótimo texto do Rodrigo Salem sobre o filme.

“Cineastas de todo o mundo, que tal um acordo? Depois de anos de centenas de dramas xaropes sobre a Segunda Guerra Mundial e algumas raras obras-primas, ninguém mais tem permissão para criar um filme do gênero, certo? Como o próprio Brad Pitt falou, depois de Bastardos Inglórios não há razão para voltarmos à eterna luta entre nazistas e aliados. Depois de Bastardos Inglórios, não falta mais nada na lista – nem mesmo mudar o curso da História. Quentin Tarantino quebrou a última barreira do seu mundo alternativo, em que mulheres se vingam com espadas e assassinos dançam como o Batman dos anos 1960. Tarantino agora entrou em nossa dimensão e não deixou nada da mesma maneira.

Nesta brincadeira com trilha de western e ecos profundos de Cães de Aluguel e Os Doze Condenados, Brad Pitt é o tenente Aldo Raine, líder de um batalhão jogado na França ocupada por Hitler para matar nazistas. Do outro lado da trama, Mèlanie Laurent vive Shosanna, judia que viu a família ser dizimada pelo coronel Hans Landa (Christoph Waltz, Palma de Melhor Ator em Cannes) e ganhou uma nova identidade como a proprietária de um cinema em Paris. As duas histórias caminham em paralelo quando so dois grupos planejam atacar os alemães na premiere de um longa de propaganda nazista na charmosa sala parisiense. Além da violência característica de Tarantino, Bastardos traz diálogos e frases que vamos repetir por anos a fio, a grande maioria proferida por Landa, vilão mais interessante da mitologia do cineasta. Seu carisma só é revializado pela crueldade. Seu papo meigo só perde para seu lado poliglota. Um ingrediente vital em um filme que Tarantino não tem medo de proclamar nas últimas palavras do roteiro: ‘Essa pode ser minha obra-prima’. Sem dúvida”.

Vida longa ao mestre!

ficha técnica
Inglorious Barterds
produção americana de 2009
dirigido por Quentin Tarantino
com Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth
153′ de duração
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BASTARDOS INGLÓRIOS

13/10/2009

Bastardos Inglórios

Nesse post-reprodução do filme do ano, Bastardos Inglórios, duas frases merecem destaque. A primeira, créditos de Lorena, se resume a “A História da Humanidade foi decidida dentro de uma sala de cinema”; a segunda, do próprio Tarantino, é um recado muito claro:  “I think this might just be my masterpiece”.

Abaixo, pra esclarecer um pouco mais a questão, o ótimo texto do Rodrigo Salem sobre o filme.

“Cineastas de todo o mundo, que tal um acordo? Depois de anos de centenas de dramas xaropes sobre a Segunda Guerra Mundial e algumas raras obras-primas, ninguém mais tem permissão para criar um filme do gênero, certo? Como o próprio Brad Pitt falou, depois de Bastardos Inglórios não há razão para voltarmos à eterna luta entre nazistas e aliados. Depois de Bastardos Inglórios, não falta mais nada na lista – nem mesmo mudar o curso da História. Quentin Tarantino quebrou a última barreira do seu mundo alternativo, em que mulheres se vingam com espadas e assassinos dançam como o Batman dos anos 1960. Tarantino agora entrou em nossa dimensão e não deixou nada da mesma maneira.

Nesta brincadeira com trilha de western e ecos profundos de Cães de Aluguel e Os Doze Condenados, Brad Pitt é o tenente Aldo Raine, líder de um batalhão jogado na França ocupada por Hitler para matar nazistas. Do outro lado da trama, Mèlanie Laurent vive Shosanna, judia que viu a família ser dizimada pelo coronel Hans Landa (Christoph Waltz, Palma de Melhor Ator em Cannes) e ganhou uma nova identidade como a proprietária de um cinema em Paris. As duas histórias caminham em paralelo quando so dois grupos planejam atacar os alemães na premiere de um longa de propaganda nazista na charmosa sala parisiense. Além da violência característica de Tarantino, Bastardos traz diálogos e frases que vamos repetir por anos a fio, a grande maioria proferida por Landa, vilão mais interessante da mitologia do cineasta. Seu carisma só é revializado pela crueldade. Seu papo meigo só perde para seu lado poliglota. Um ingrediente vital em um filme que Tarantino não tem medo de proclamar nas últimas palavras do roteiro: ‘Essa pode ser minha obra-prima’. Sem dúvida”.

Vida longa ao mestre!

ficha técnica
Inglorious Barterds
produção americana de 2009
dirigido por Quentin Tarantino
com Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth
153′ de duração
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FILMES

20/09/2009

CONFISSÕES DE UMA GAROTA DE PROGRAMA (The Girlfriend Experience, 2009) Soderbergh é um cara genial. Não necessariamente por seus filmes, mas pelo modo com que ele os faz. O esquema é o seguinte: faça um blockbuster, consiga grana, e faça seus intrigantes estudos cinematográficos. É óbvio que em seus filmes mais comerciais, seu estilo também está ali, mas isso não vem ao caso. Confissões de uma Garota de Programa é um pseudo-documentário sobre o dia-a-dia de uma prostituta de luxo. A rotina com os clientes e sua vida “normal” são as duas linhas narrativas percorridas que se misturam na trama. E engana-se quem imagina sexo ao quadrado: nas poucas cenas em que a protagonista – a estrela pornô Sasha Grey – mostra o corpo, não há gratuidade e tudo é filmado com muita beleza e delicadeza, instigando a veia dramática da “atriz de verdade”. O filme dá umas derrapadas no início, quando põe lado a lado a crise financeira mundial personificada por palavras do então candidato a presidente Barack Obama e a dificuldade para os profissionais na outra ponta da corda, no que parece uma tentativa de justificar os atos obscuros da garota. É diferente e interessante, ao contrário de Full Frontal, e tão lindamente filmado (os planos distantes são uma delícia) que quase transforma Grey numa candidata ao Oscar.

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FILMES

19/09/2009

PASSAGEIROS (Passengers, 2008) Aos poucos o colombiano Rodrigo García vai construindo uma sólida carreira cinematográfica com filmes de extrema sensibilidade por ele conduzidos da mesma forma. Depois do debut com Coisas que Você Pode Dizer Só de Olhar para Ela, que lhe rendeu o troféu da sessão Un Certain Regard no Festival de Cannes em 2000, o diretor fez dois outros longas antes de uma duradoura passagem pela tv americana, dirigindo episódios de séries como Big Love, Six Feet Under, In Treatment, até lançar Passageiros, no ano passado.  O filme é um drama com toques de suspense, que encaminha sua história em aberto até um ponto em que toda a trama é revelada – já bem perto do fim. Não vale aqui sequer tocar na questão, uma vez qualquer discussão pré-exibição estragaria por completo boa parte do efeito de assisti-lo. O que vale ressaltar, entretanto, é que se o material que o diretor tem em mãos – nenhuma novidade, talvez até um tanto quanto óbvio para um público de olhar mais apurado – é eficiente, os méritos são quase que exclusivos de Rodrigo, que transforma elenco (os sempre excelentes Anne Hathaway e Patrick Wilson) e roteiro em seqüências bastante interessantes, num claro sinal de que ele acredita naquilo que seu filme diz, e talvez isso faça toda a diferença. O sucesso do filme junto ao público, no entanto, vai depender de determinados padrões que o expectador possui. Trocando em miúdos: é provável que quase ninguém compre a idéia de Rodrigo em Passageiros, ainda que sua temática faça um sentido absurdo.

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OBITUÁRIO

18/09/2009

IT’S BEEN A HARD DAY’S NIGHT

Patrick Swayze

PATRICK SWAYZE
1952-2009

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FILMES

06/09/2009

UP – ALTAS AVENTURAS (Up, 2009)  Como Woody Allen, a Pixar lança, religiosamente, um filme por ano. O primor de seus trabalhos é marca registrada e pela primeira vez, sua produção é exibida no formato 3D, a coqueluche do cinema atual – principalmente entre as animações. E Up – Altas Aventuras tem ainda conteúdo: a história do velhinho que faz sua casa literalmente voar com balões de gás hélio dos Estados Unidos até à América do Sul tem graça e diversão de sobra, mas ganha força mesmo com o fundo moral que em nenhum momento soa pedante. O prólogo, quando o personagem principal ganha vida ainda criança até à velhice, em uma face da história que os trailers não mostravam – ponto positivo para a produção! – se revela, possivelmente, o maior trunfo do filme – que vai e volta várias vezes durante os 90 minutos de duração. Ainda que não entre no hall dos melhores filmes do estúdio, assim como o cineasta nova-iorquino, produção da Pixar sempre merece ser apreciada.